julio-agosto 2017, AÑO XI, Nº 62

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Jornal do Brasil
A idade da idade do serrote

O poeta brasileiro Murilo Mendes nasceu em 1901 em Juiz de Fora e morreu em 1975 em Lisboa, depois de viver durante quase vinte anos em Roma. Fez-se poeta, conta-se, com a visão da passagem em 1910 do cometa de Halley nos céus da então pequena cidade do interior mineiro. Em 1968, muitos livros de poemas metafísico-surrealistas depois, publica uma série de fragmentos autobiográficos sob o título de A idade do serrote (Rio de Janeiro: Editora Sabiá). O serrote: trata-se da imagem utilizada pelo poeta para se referir às experiências da infância e da adolescência em Minas Gerais nesse momento de travessia rumo às guerras santas do Ocidente. Mas o que seria a idade do serrote em 1913? E o que ela seria em 2013? Resgato a de cem anos atrás para então refletir-se à vontade sobre o presente, o tempo e o intempestivo a partir dos múltiplos retratos de que é feito o livro.

A imagem do serrote retorna no texto com uma enumeração de ferramentas de cortar e de torcer em forma de mantra: serra, serrote, machado, martelo, tesoura, torquês: “via-os por toda parte, símbolos torcionários”. Mas a mesma metáfora serve-lhe também para abrir ou expandir a caixa dos laços de família: Pai, “grande coração comunicante”; Mães, constelação (a mãe de sangue, morta num parto aos 28 anos) e ternura (a mãe nova, não-madrasta amada). Com as damas em geral, mantém a atitude característica do chamado come-quieto, assumindo-se como um voyeur precoce e curioso: “Captava com o ar mais sonso do mundo notícias de Eros”. Não satisfeito, “desde menino queria descoroar os imperadores, alguns deles de resto já abolidos”. No final do primeiro jorro, a revelação sobre o cometa enquanto “a subversão da vista”, “a primeira ideia do cosmo”. Nascimento? Não se nasce na hora, “nascemos a posteriori”. Nesse caso, na “obscura, difícil Minas de pedra” do Murilo menino.

A escrita da memória de Murilo Mendes mescla, portanto, poesia e prosa e inventa uma fala nova, como um escritor mais que alabado no livro, João Guimarães Rosa (1908-1967) vinha fazendo por aqueles anos 50 e 60 –das “Margens da alegria” até “A terceira margem do rio” e além. Poesia e prosa, o arcaico e o moderno plasmados na Idade do serrote através de figuras de corte, de fendas, caroços e crispações:

 

“...Superadas pianolas, minhas avós de carne e osso, ó vós, ovas sem ovações, mulheres-avós que eu nunca vi, desovadas em rios dioscuros da obscura, difícil Minas de pedra, que me fazia doer o peito por falta de mar; vindas de vulvas montanhosas e de falos insapientes da importância da futura inflação humana e financeira do Brasil; bisavós remotas casadas com gigantones cabezudos; deixando cair as fazendas em usocapião, abolindo os domínios Paraopeba e Congonhas.”

 

Logo na sequência dessa fala híbrida inicial é apresentada uma profissão de fé antropofágica, comum entre os Andrades do Brasil e entre todos os Borges do universo (quer dizer, boa parte da nação argentina), sob a forma da devoração de livros e da tentação carnal:

 

“No tempo em que eu não era antropófago, isto é, no tempo em que não devorava livros –e os livros não são homens, não contêm a substância, o próprio sangue do homem?– no tempo em que não era antropófago, isto é, no meu primeiro tempo de criança, as têmporas de Antonieta me tentavam e me alienavam, a mim o atento: que tento tenho, e quanto.”

 

Entre tentações e enumerações e frutos da terra vai-se configurando a idade do serrote, sob a forma de têmporas e de temporalidades: das têmporas de Antonieta e da romã às pitangas temporãs, o tempo-será e as têmporas do tempo até “o tempo atual, superado por um tempo de outra dimensão, e que não é aquele tempo. Temporizemos”. E temporizemos para o moleque Murilo significa o amor sem reservas pelas musas da pré-história do cinema europeu: Asta Nielsen! Pina Menichelli! Gabrielle Robinne!

Os capítulos-quadros têm em geral nomes próprios como títulos. Assim, Etelvina, a ama de leite dos meninos mais velhos. Assim, a Rainha do Sabão, que desfila sua vida nua pelas ruas cantando o samba-enredo que lhe deu a real alcunha. Assim o negro Isidoro da Flauta, para quem o som é questão de tato, além de eco e de sopro:

 

“No princípio quero pegar o som. Isidoro passa-me a flauta, é preta com uns enfeites prateados, reviro-a de todo jeito, Isidoro cadê o som, responde: o som está escondido na minha boca e no oco da flauta mas eu aperto ele com as mãos; Isidoro ri, sadio, parece que tem 64 dentes, branquíssimos. Isidoro cadê o som? Isidoro sem dúvida está mordendo o som. Corro para lá para cá, vejo um começo de incêndio no morro do Imperador, julgo que o morro acendeu um fósforo. Cadê o som? Isidoro querendo me sossegar diz que o som correu para apagar o fogo mas vorta já.”

 

Assim a Sebastiana, a Analu, o bêbado Amanajós, “grandão, sinistro, olhar de capa e espada, nu da cintura para cima, de bigode, amplas entradas, assemelha-se a uma larga figura de homem no quadro ‘Le cerveau de l’enfant’ do primeiro de Chirico”. O leão Marruzko. O mendigo Dudu, salvo dos meninos maus pelo pai de Murilo. A Dona Coló, barbada e cheirando a galinha molhada. O poetastro Belmiro Braga, primeiro professor de poesia.  O famoso padre Júlio Maria, obcecado pelo Juízo Final e a Segunda Vinda de Cristo, símbolo do “catolicismo vivo” para Murilo Mendes, converso em 1935 a um “cristianismo das origens”. O tio Chicó, “doido manso”. A Religião através da pessoa de Júlio Maria, que nesse quesito “me imunizara contra a pieguice e o sentimentalismo”. O primo Alfredo, dentista “formado (ou deformado) pelo positivismo e o naturalismo científico”. Cláudia, a bela pianista: “Jogávamos bilboquê juntos. Era tudo pretexto para o toque recíproco das mãos. Eu matutava em Cláudia mesmo durante a noite: a ternura revira-se dormindo”. O primo Nelson, inteligente e culto, “que cedo me transmitiu o vírus da literatura”. Dona Custódia, a bruxa que “falava às vezes entre dentes, ‘refunfuñando’” (em citação de Quevedo). É sempre questão de tato e de toque, de sopro e de cercania. Sua Desdêmona mineira, por exemplo, é assim:

 

“Desdêmona miroares Desdêmona miroares Desdêmona desdenhosa com dois dês e os dedos manipulando homens, dados, cartas de baralho, miroares, penhoares atrevidos, vidros de cheiro homens homens homens; manipulando a mula-sem-cabeça o cigarro a torquês; Desdêmona desnuda desarrumada desnalgada desnatada; Desdêmona a viceputain juiz-forana (a titular era Ipólita).”

 

Mais a namoradinha Margui e toda a féerie da pequena história de província. É o caso da prima Julieta, jovem viúva que, não obstante,

 

“sentia o prazer de existir. Portava charme, era rica, simpática, envolvente. O gesto de abrir uma janela, colher uma flor, sentar-se ao piano, parece que se tornava a seus olhos um fato feérico. Talvez nem reparasse que havia a História com a inicial maiúscula; mas construía intensamente a história cotidiana sublinhando as pequenas coisas que acabavam por adquirir uma vida própria, julieteana.”

 

Já tio Lucas era o médico raro que não cobrava as consultas, morto jovem em serviço. E as gêmeas Florinda e Florentina, coitadas, sendo essa pobre Florentina aquela que vê a irmã se casar com o homem que também ama, passa a jurar que se chama Florinda e por esse motivo passará o resto dos dias num hospício. Quanto a Adelaide, a harpista magnética, ela de repente ganha um novo aluno, aprendiz de poeta, que “sob o pretexto de tomar lições de música”, passa a frequentar sua casa. E então Asta Nielsen. E Lindolfo Gomes, professor e baú de histórias. E a minha prima Carmem, alimentada por “uma dupla energia, de mulher e de homem: evadâmica”  que Guimarães Rosa chamaria “Evanira!”. Mais Sinhá Leonor, outra prima, só alegria, que torna a existência um carnaval: “Naquela época o carnaval tornou-se o centro do meu interesse. Mandei as estrelas à merda, perdi a inocência e iniciei uma fase nova da minha vida”. E também Abigail, a “vamp honesta”, “nossa musa telefônica”. E a misteriosa Hortênsia, prima alienada do convívio humano, Gaspar Hauser (ver poema homônimo em Poesia liberdade) juiz-forana. E Mariana, irmã de Hortênsia, abandonada pelo mágico Alfanor. E Teresa, ou melhor, Teteia, uma teteia de mulata adotiva, “dotada de simpatia e raro dom de comunicabilidade, quem não a amaria?”. E o professor Almeida Queirós, francófono refinado. E o professor Aguiar, filósofo da casa-biblioteca. E meu pai, “de uma paciência absoluta com o adolescente estranho que sou”, pai-herói respeitosamente colocado na linhagem de um Mahatma Gandhi em tempos de muita guerra, paz e amor: “Praticou a paz, não a paz telegráfica e a de comícios; viveu a paz em música de câmara, amando-a total na sua carne e no seu espírito”.

Todas as coisas e todas as pessoas confluem para “O olho precoce”, desfecho de A idade do serrote, capítulo todo percepção, todo mirada e todo miragem, inteiramente dedicado ao inconsciente ótico, símbolo não apenas torcionário               –como o olho vazado do Cão andaluz– mas olho simultaneamente “armado” que celebra “o prazer, a sabedoria de ver”: “ver coisas, ver pessoas na sua diversidade, ver, rever, ver, rever”. É preciso ler, então, seja na autobiografia liberdade de Murilo Mendes, seja em O visionário (1941), seja em Contemplação de Ouro Preto (1954), seja em Finestra del caos (1960), a liberdade do leitor de poesia na voz gutural do serrote, cuja visão-constelação não admite ficar cego nem em 1913 nem em 2013.

 

(Actualización septiembre – octubre 2013/ BazarAmericano)

 




9 de julio 5769 - Mar del Plata - Buenos Aires
ISSN 2314-1646