septiembre-octubre 2017, AÑO XI, Nº 63

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Diário de Viagem (inverno 2013)
A guerra, o deserto

(entre Mostar e Sarajevo, 22 de fevereiro)

Deixamos a pequena Mostar, a capital da Herzegovina banhada pelas águas cor de esmeralda do rio Neretva, em direção a Sarajevo, última etapa da viagem, cidade que ficou sitiada pelo exército da Iugoslávia e pelos grupos paramilitares sérvios de 1992 a 1995 sob o olhar complacente das chamadas potências ocidentais. Vamos subindo de ônibus, cortando as montanhas dos Alpes Dináricos, acompanhados por esse rio que nos fascinou desde que chegamos a Mostar debaixo de muita chuva, há dois dias. No caminho, os campos estão cobertos pela neve. Em Mostar, voltamos a ter contato com as mesquitas, cujos minaretes cortam a paisagem até onde a vista alcança; voltam também os chamados dos muezins – palavra turca que significa “aquele que conclama à prece” – que ecoam pela cidade em vários momentos do dia, uma espécie de canto que produz uma estranha sensação em mim, em meu corpo. Mas a viagem, que havia começado antes, por Istambul, tinha também como tema, além da memória da guerra fratricida na Bósnia e na Croácia, o deserto que havia me surpreendido no voo para a Turquia, da janela do avião, parecendo, a 9 mil metros, uma superfície amarelo escura que se mexia com as mudanças que as linhas e as densidades da areia iam produzindo com nosso deslocamento, um caleidoscópio. Istambul, primeira parada, cidade de 18 milhões de habitantes, economia pujante, história longa, do poderoso Império Otomano ao projeto ocidentalizador de Kemal Atatürk, cidade e cultura que já haviam despertado meu interesse antes, em 1999, numa primeira e breve visita. Uma dica de um guia de viagem me levou à série de livros que têm como personagem central um inspetor de Istambul, Çetim Ikmen, escritos por Barbara Nadel; comprei antes da viagem Arabesk, que terminei de ler no avião. Em Istambul, comprei Belshazzar’s Daughter, o primeiro da série, uma delícia que compartilhava no café da manhã com minhas companheiras de viagem, minha filha e uma amiga. A visita a Istambul se faz então sob o clima do estranho crime cometido no bairro judeu da cidade, Balat, e que desvenda um enredo que liga a história da Rússia, da Turquia e, por que não?, de todos nós. Foi em Balat que se concentrou parte dos judeus sefarditas, expulsos pelos mesmos reis católicos que financiaram a “descoberta” da América. O grupo que cerca Çetim Ikmen tem a cara de Istambul: seu sargento, Mehmet Suleyman, é de família nobre, otomana; Arto Sarkissian, o legista, amigo de infância, é armênio; um dos policiais, Balthazar Cohen, amigo de Suleyman, é judeu; o próprio Ikmen é filho de turco com albanesa. A enorme cidade dividida pelo estreito de Bósforo, com parte na Europa e parte na Ásia, passa diante de meus olhos, aí no chamado mundo real e, também, na ficção dessa inglesa nascida no East End de Londres. A cidade literária já me havia seduzido no inverno europeu de 2012, quando comprei na Itália os livros de Petros Markaris que têm como personagem central o comissário Kostas Charitos, de Atenas. Um deles se passa exatamente em Istambul (La balia, em italiano, ou seja, A babá) para onde o comissário e sua mulher haviam ido de férias, férias que, claro, acabariam se interrompendo com os crimes cometidos, primeiro na Grécia e logo em seguida na Turquia, por uma senhora de quase 90 anos originária do Ponto Euxino. Assim, à medida que Kostas Charitos ia desvendando os crimes, junto com seu colega da polícia turca, Murat, vamos conhecendo a história da minoria grega que morava na Turquia até a Grande Catástrofe, de 1922, quando cerca de 1 milhão de gregos tiveram de se transferir da Ásia Menor para a Grécia. A Turquia, sua força e sua história que víamos reaparecer na Bósnia nas pequenas e simpáticas mesquitas de Mostar e Sarajevo, nas bandeiras vermelhas com a lua e a estrela que vez por outra se faziam ver aqui e ali, na música que, para nossos ouvidos ocidentais, soa “oriental”, nas mulheres com a cabeça coberta pelo véu. Istambul, onde a Mesquita Azul, ou Mesquita do Sultão Ahmed, construída no século XVII em frente a Ágia Sofia, me fez tremer de emoção diante de uma beleza radiante e ao mesmo tempo sóbria.

 

(Actualización marzo – abril 2013/ BazarAmericano)

 




9 de julio 5769 - Mar del Plata - Buenos Aires
ISSN 2314-1646