diciembre-enero 2023, AÑO 22, Nº 90

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Osvaldo Aguirre
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/  María Eugenia López

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Diário de viagem
Um tradutor de volta à Ilha de Santa Catarina. Verão no Desterro, o fascismo esperneia e ameaça, a morena dança e Lula toma posse. 

“Recolhamo-nos meus irmãos que já é tarde
e há lá fora hienas que gostam de sangue”

Jorge de Lima

“Do trem, vi muitas!”

Antenor Nascentes

“Trabalhadoras e trabalhadores
 do Brasil, vocês existem e 
são valiosos pra nós”

Sílvio Almeida, na posse

 

O tempo e o vento – Depois de ler O gaúcho, de José de Alencar, passo à grande obra (Uauuu) do Érico Veríssimo que peguei na casa da Haydée. O primeiro volume, O Continente, é a segunda edição da Globo, de Porto Alegre, que ela assinou (ainda Haydée Guimarães Gonçalves) e datou Rio, 28 de junho de 1950, portanto, dois anos antes de se casar com Alamiro, e dois anos depois de conhecê-lo em Caxambu; o segundo, O Retrato, primeira edição, de 1951, assinado e datado Rio, 25 de dezembro de 1951. Sigo encantado a narrativa e, principalmente, curioso e intrigado, as partes que Haydée sublinhou. Por que o risco de um lápis põe em relevo um determinado trecho? Tinha aquilo algo a ver com o que estava vivendo?

 

Teoria da comunicação – Por um lado, Hermes subiu a serra levando uma mensagem que não teria resposta. As poucas linhas eram balbuciantes, gaguejadas, uma total falta de jeito. O remetente havia atabalhoadamente seguido seu coração. Por outro, Hermes trouxe mensagens de além-mar, fotos de uma criança, mensagens que também não teriam resposta, apesar de comoventes. Paciência. A comunicação é um fenômeno assombrado por ruídos, malentendidos e silêncios. 

 

A copa da Geni – Enfim, perderam. E digo assim, na terceira pessoa do plural e não na primeira, porque essa seleção não representa o país (eles não moram aqui, não jogam aqui e, com raras exceções, não têm vínculos com o que acontece por aqui), não é o país de chuteiras, mas um bando de riquinhos mimados, arrogantes (tá bom, nem todos) e que não sabem perder (assim como o bando de fascistas do verme). Então, perderam, apesar do golaço daquele que havia prometido um gol ao perverso inominável. Perderam. Estou contente, pois agora começa a fase que poderíamos chamar de “joga bosta na Geni”: a crítica dura não só aos jogadores, mas ao técnico que deixou o time chorando em campo e se dirigiu ao vestiário. Perderam. Bem-feito. (P.S. – Cegos por excesso de ouro, não foram ao enterro de Pelé)

 

Lula diplomado – Enfim, ganhamos. O homem que veio de Garanhuns foi diplomado ontem em uma cerimônia emocionante, enquanto os fascistas esperneavam em Brasília botando fogo em ônibus e carros sob o olhar complacente da polícia fascista de Brasília. Ainda temos duas semanas de terror dos bandos fascistas. Mas ganhamos. Saravá!

 

Haydée no choro – Levamos H, 94 anos, para ver, e ouvir, a roda de choro do mulheril, no mesmo lugar do samba da Antonieta, no centro velho de Floripa, a poucos metros de onde nasceu Vitor Meireles. Há poucos homens, muitas mulheres jovens, algumas de cabelo branco, como esta, sentada na mesa ao lado, que faz Haydée lembrar de Dona Micota, sua avó paterna. Puxada pela Ana, ela dança na rua de paralelepípedos ao som de Pixinguinha, Chiquinha Gonzaga e Jacob do Bandolim. 

 

Livros de viagem – “Sobre a costa ocidental, refrescada pela corrente de Humboldt, a cordilheira imensa se deita sobre o oceano com suas áridas encostas cor de sonho: do navio, parece uma cadeia de nácar, alguma coisa assim como a barbatana de um peixe que nadasse num azul sem nuvens.” (André Siegfried, Amérique Latine, 1934) Encontrei a cita em América do Sul, 1937, de Antenor Nascentes, volume XIII da coleção viagens que traz, entre outros, América, de Monteiro Lobato, Shangai, de Nelson Tabajara de Oliveira, A India, de Bruno Vassel. Uma pérola encontrada na biblioteca da Marina. A citação aparece no momento em que o filólogo carioca se desloca de navio de Valparaíso até Antofagasta e aparece como um panorama: “De Valparaíso a Buena Ventura, não me cansei de ver os Andes”. Uma cadeia de nácar, algo como um gozo deslocando-se horizontalmente, uma substância branca como aquela do interior das conchas, deslocando-se no tempo, pela janela. Como as fotos de Guilherme Botelho que o Joca me mostrou outro dia. 

 

Foto de família – Uma imagem velha, rasgada em alguns pontos e cortada no canto inferior direito, mostra os seis personagens, a família Gonçalves. Alguém anotou atrás os nomes: “Da esquerda pra direita: Gonçalves (casal) com os filhos Sílvia, Mário, Clélia, Sílvio.” Esqueceu, no entanto, de José, o caçula, que sentado em um cavalo de pau bem menor do que ele, faz pose entre o pai e a mãe. Apenas Sílvia, uma menina vestida como uma mulher mais velha, e Sílvio, ambos nas pontas, estão em pé; Mário, ao lado da mãe, de bigode, com as mãos pousadas sobre as coxas, Clélia, ao lado do pai. Os homens vestem ternos com colete e colarinho alto, cores escuras; as mulheres, vestidos longos, claros. A imagem foi certamente produzida, encenada, pelo fotógrafo. Não está datada, mas deve ser dos primeiros anos do século XX. 

 

Mea culpa – “Essa literatura tão bela e tão rica que por amá-la imensamente me levou a escrever um livro errado sobre raça. Fi-lo de boa fé e confesso o meu erro que já procurei sanar refundindo toda a obra. E de público lanço um apelo a esse esclarecido Mansueto Kohnen que tendo sido meu aluno, se tornou meu mestre: auxiliar-me na correção dos enganos que cometi para que uma segunda edição de Rassenbildung und Rassenpolitik in Brasilien apareça honesta aos olhos do Senhor, a quem nós tememos principalmente como crítico do verso.” (Jorge de Lima, Síntese de Literatura, publicado a 28 de dezembro de 1949, pelo jornal A Manhã, do Rio)

 

No fundo do baú – “Todas essas coisas naturalmente me excitam a fantasia pelas suas possibilidades novelescas, mas concentro a atenção principalmente nas cartas, nos recortes de jornais e nos daguerreótipos que descubro dentro de uma caixa de sândalo, no fundo do baú.” (Érico Veríssimo, O tempo e o vento, III volume de O arquipélago)

 

A hora da posse – O Rolls-Royce atravessa lentamente a avenida ladeado por duas fileiras de seguranças de terno escuro de ambos os lados e capitaneado por motocicletas em forma de v invertido: em pé, o homem que saiu de Garanhuns com a mãe e os irmãos na boleia de um caminhão para tentar a vida em São Paulo. Enquanto o carro, presente da rainha da Inglaterra, se desloca, vão ficando pra trás os seis últimos anos de saque, de terror, de arrogância, brutalidade e grossura. O homem que veio de Garanhuns sobe a rampa com Raoni e no momento em que sua imagem esconde a imagem do índio caiapó, o cocar amarelo paira sobre sua cabeça. Saravá!

 

O drama da descrição – “De resto, que importância real poderá ter a descrição de uma paisagem numa história de seres e conflitos humanos?” (O tempo e o vento, vol. III, O arquipélago, Érico Veríssimo)

 

Primo da cotia – “Lá nas matas tem / cachorro do mato, caxinguelê, ôooo”, o samba ouvido ontem nas vozes de Julia Maria e de Jandira Souza, no samba da Antonieta, amanheceu vivo na memória – relembro ouvindo Clementina no iutubi. Caxinguelê, caxinxe, caitité / papa coco, quatiaipé, quatipuru / serelepe / do quimbundo, rato de palmeira. Às vezes, o dicionário traz o verso pronto. 

 

Ideia de fragmento – José declina ao mesmo tempo em que, na Europa, declina o nazismo. Mil novecentos e quarenta e três: a URSS resiste / primeira tentativa de suicídio; mil novecentos e quarenta e cinco: a Alemanha colapsa / morte de José e, logo, do Estado Novo. Outra ideia: José lê Nietzsche diante de um copo de chope no Bar Luiz poucos dias antes da primeira tentativa: “A subir – a despeito do espírito que o puxava para baixo, para o abismo, o espírito de gravidade, o meu demônio e mortal inimigo. / A subir – muito embora ele estivesse sentado nas minhas costas, meio anão, meio toupeira; aleijado; pingando chumbo em meus ouvidos e pensamentos como gotas de chumbo no meu cérebro”. Dois anos depois, no crepúsculo do Estado Novo, o espírito de gravidade levava José. 

 

Verão na Ilha – Os dias são claros, até frescos. Dois pica-paus de crista amarela na embaúba; o barulhinho gostoso dos canários na calha.

 

O homem de Garanhuns – Subiram a rampa com ele: Aline Souza, 33 anos, catadora de materiais recicláveis; Francisco, 10 anos, morador da periferia de São Paulo; Wesley Rocha, 36 anos, metalúrgico como o fora o Homem de Garanhuns; Murilo Jesus, 28 anos, professor; Jucimara Santos da Vigília Lula livre, cozinheira; Ivan Baron, portador de paralisia cerebral; Flávio Pereira, artesão e o cachorro Resistência, também da Vigília.

 

Uma semana depois – As hienas fascistas invadem Brasília, os prédios de Niemeyer, quebram tudo, defecam na mesa e rasgam Di Cavalcanti (um ataque antimodernista). Uma crônica da morte anunciada. Sigo na TV e na internet o acontecido acontecendo. Até agora 1.500 presos. A ameaça continua.

 

Livros de viagem – O correio me traz os dois volumes de Nelson Tabajara de Oliveira – Roteiro do Oriente, sua viagem do Rio a Shangai em um navio japonês em 1933, e Shangai, seu destino e lugar de trabalho como cônsul – e A India, de Bruno Vassel, que acabo descobrindo ser um personagem no mínimo curioso. Filho de alemães que prestavam serviços aos ingleses na Índia, Vassel nasceu em Allahabad, esteve na Alemanha antes e durante a I Guerra, emigrou para o Brasil em 1922 e para os EUA em 1927, onde doutorou-se em bioquímica trabalhando para grandes empresas como a Johnson e Johnson. Vê a Índia como o conquistador, certo de sua superioridade.

 

Juízo de Aira – “Su segundo ciclo, más ambicioso, tuvo como título general O tempo e o vento y lo constituyen tres novelas: O continente (1949), O retrato (1951) e O arquipélago (1961). El relato cubre dos siglos de vida riograndense, en la historia de dos famílias; el primer tomo es el único que cumple con las intenciones épicas del autor; en los otros dos, fatigado, se dejó llevar a una crónica que, aún con buenos momentos, cae en la chatura”. (Diccionario de autores latinoamericanos)

 

De Nair a Alamiro – Rio, 1º de maio de 1952 / Muito amado e querido filhote / Saúde e felicidade, é o que de coração te desejo. Nós vamos indo bem graças a Deus, porém com muitas saudades tuas. / Meu filho, junto com a casimira, enviamos um queijo de Minas, pois tu gostas muito; não te escrevi um bilhete, para botar no embrulho, por falta de tempo, pois quando a Dedê telefonou, avisando que o conhecido deles, o piloto da Cruzeiro do Sul, ia no dia seguinte pela manhã, buscar a encomenda para levar, nós tivemos que ir comprar o queijo às pressas, para fazer o embrulho e levar na casa da Dedê; como vês, fizemos tudo às carreiras, não dando tempo de escrever, um bilhetinho ao menos para você. Como vão as modas por aí? Por aqui! As coisas não estão boas! Não estão não! Eu que diga! Está insustentável! Imagine você, como está o nosso Rio; tudo caríssimo; imagine só; vai-se no açougue, além de cara a carne, procura-se carne de peito, e o português virou-se para teu pai, com todo o cinismo e disse (Peito de boi não temos, só se foire peito de mulher); o teu pai ficou amolado, mas quando ele chegou em casa e me contou, nós rimos a valer; veja você a situação está assim; tudo muito caro, não sei onde vamos parar. / O pessoal em Caxambu vai indo bem graças a Deus. O José com a Tereza e as crianças devem chegar no dia 4, domingo que vem; com eles vem também vovó Cecília e Fernanda. E você, meu querido filhote, quando vem? Estamos com tantas saudades tuas! Estamos ansiosos para tornar a te abraçar e matar estas saudades imensas. Bom, filhote, por hoje é só. / Termino esta enviando-te muitos beijos, abraços, e os corações saudosos dos pais que muito te amam, abençoam e pedem muito ao bom Deus e à Virgem Santíssima para que eles te protejam e te façam muito feliz. / Nair e Antonio

 

Três vidas – José e Odette embarcaram no Rio em um navio do Lóide para Porto Alegre cujo porto havia sido inaugurado sete anos antes, em 1921. Daí tomaram o trem que corria de leste para oeste, cortando o estado ao meio até Uruguaiana, pela ferrovia completada em 1907 depois de 30 anos de trabalho, com destino a Alegrete. Os dois vinham calados. Pela janela, em torno de Porto Alegre, a paisagem molhada pelo Guaíba, onde se encontram as águas dos rios Jacuí, Sinos, Caí e Gravataí e de inúmeros arroios formando conjuntos com ilhas, canais, charcos e pântanos, ia dando lugar à campanha, às coxilhas, de relevo levemente ondulado, numa rápida sucessão de quadros, como num filme em cinemascope. O mestre da paisagem levava ambos a uma vida de casados que começava. José ia preocupado: Talvez tenha sido um erro. Essa relação tinha mais a ver com a amizade dos pais. Como gostavam de tocar junto! Desde a morte de seu Faustino, andava nervosa, neurastênica mesmo. Agora estava grávida. Talvez um filho pudesse abrir uma nova via. A ver. Sentada a seu lado, Odette não sabia o que esperar de uma cidade no meio do nada, mas como mulher sabia esperar, apesar de si mesma. Sentia o filho na barriga, dois corpos dançando no balanço do trem. O movimento, o barulho gostoso do ferro, as imagens correndo ligeiras pela janela, o cheiro do campo, o vento, tudo a levava ao devaneio. Alegrete teria algo a ver com alegria? Podia até sentir algo próximo, quando as preocupações, os medos e a ansiedade não tomavam todo seu corpo pequeno. Haveria porém alegria em lugar tão isolado, tão melancólico, onde o vento corria solto sem encontrar obstáculos e a paisagem se perdia em um infinito de campos vazios? Na foto meio apagada que tiraram mais tarde na cidade com alguns conhecidos, tem uma expressão de espanto.

 

O andar da carruagem – O homem que olha para baixo passa caminhando diariamente diante da minha casa. Na frente, vai o filho, como um abre alas. Quando perdemos as eleições em 2018, me deu uma gozada. Engoli. Hoje, passa na frente de casa de cabeça baixa, chinelo de dedo, camisa de algodão, bolsa a tiracolo. Olha sempre para o chão, resignado. Nem sempre os cavalos vêm na frente da carruagem. 

 

Política urbana – “Com a assistência dos Srs prefeito, engenheiros municipais, diversas autoridades policiais, acompanhados de grande força policial, começou ontem, às 7 horas da noite, a demolição da celebérrima estalagem Cabeça de Porco. O fato atraiu grande massa de curiosos.” A notícia saiu em O Tempo, em 26 de janeiro de 1893. O Cabeça de Porco era um enorme cortiço na Pequena África, onde moravam até 4 mil pessoas. No dia 28, o jornal comemorava o fato: “Está demolida, totalmente demolida, a famosa estalagem, a inexpugnável cidadela, a sucursal da Sapucaia (ilha na baía de Guanabara onde se jogava o lixo da cidade do Rio) – a Cabeça de Porco. Parece um sonho, mas não é. Post tantos tantos que labores. Para alguma coisa havia de prestar o gênio sôfrego e birrento do prefeito (Barata Ribeiro). ´Há males que vêm para bem´, diz o refrão e o mal do nosso prefeito está nesse caso. Durante todo o dia, afluíram os curiosos e incrédulos a contemplar os destroços daquela Carthago que teve muitos Marios a chorar-lhe. Para outros, para os que se interessam pela higiene e pelo embelezamento da cidade, a enérgica e decisiva medida posta em prática pelo prefeito municipal foi motivo de júbilo e de maior júbilo ainda o foi para as pessoas pobres moradoras das circunvizinhanças, que se supriram de lenha para muito tempo, autorizadas pela prefeitura demolidora a retirar para si o madeiramento velho arremessado em estilhaço pelas picaretas dos operários da grande obra de saneamento moral e material. E assim desapareceu a legendária e temerária Cabeça de Porco.”

 

Assim como José – Descobri esses dias que Mikhail Bulgákov havia escrito nos anos 20 um pequeno relato chamado Morfina. Uma rápida pesquisa me leva à edição brasileira de Anotações de um jovem médico que inclui o relato. Bulgákov exerceu a medicina por poucos anos no interior do país e também se viciou em morfina. Interessado no assunto em função da relação de José com a droga nos anos antes de sua morte, leio o texto na tradução de Érika Batista: “... Na realidade, compreendo a inquietude dela. De fato, morphinum hydrochloricum é uma coisa terrível, o hábito se cria muito rápido. Mas um pequeno hábito não chega a ser morfinismo, não é?...” Teria sido assim com José? Se a morfina está ligada a uma dor intensa (no caso de Poliakov, uma dor de estômago), que dor teria levado José até ela? Os únicos elementos que tenho são: um casamento infeliz, uma amante, uma vida que decai. O que mais haveria? Como teriam sidos aqueles anos 40, anos de Estado Novo, da guerra na Europa, até a primeira tentativa de suicídio em 1943? Quem era exatamente José? Como terá sido sua infância nos primeiros anos do século XX em uma família de classe média (seu pai era professor e músico)? Que relação teria com Mário, seu irmão mais velho e também médico? 

 

Processo de seleção – Fica claro, nessa segunda fase, que o desenvolvimento racial no Brasil não leva a uma mistura sem caráter e valor, como tem sido talvez observado, mas sim que se realiza um processo de seleção duradouro e preciso que traz consigo uma gradual arianização de nosso povo e com isso a eliminação das raças inferiores. Pode-se provar de maneira incontestável que o coeficiente da raça branca no Brasil cresce a cada ano. No presente, as raças que se cruzaram, e as que delas são provenientes, ainda estão muito próximas. As duas raças de estágios inferiores, os indígenas e os negros, constituem ainda um contingente significativo da população e mantêm muitas vezes quase totalmente sua pureza primitiva. (trecho de Formação racial e política brasileira, ensaio que Jorge de Lima escreveu nos anos 20 e publicou em 1934 na Alemanha)

 

Verão na ilha – Os passarinhos cantam alucinadamente, mas o que se impõe é a vibração longa, intensa, que atravessa o ar, produzida pela cigarra. Saravá!

 

De onde viemos – Neste sentido, pode-se dizer que a construção do Brasil se fez à custa da destruição de Angola. (O tráfico negreiro / Sem Angola não há Brasil, Luiz Felipe de Alencastro)

 

Cabeça de porco – Durante cinco anos, passei pelo túnel João Ricardo que liga a região da Central do Brasil à Saúde e à Gamboa e ao Santo Cristo, no Rio, onde ficava o velho prédio dos Diários Associados, sede do Jornal do Comércio, sem saber que ali havia florescido até 1893 o mais famoso e o maior cortiço da Pequena África, bairro dos afrodescendentes que tinham vindo do Recôncavo baiano e do Vale do Paraíba. O Cemitério dos Pretos Novos, no Valongo, nessa época, anos 80, ainda não havia sido redescoberto – ali foram jogados os africanos que não resistiam à travessia. Eram os tempos da ditadura e a história da cidade era contada sob o signo do progresso, da modernização, do saneamento e não da escravidão, do tráfico e do morticínio. Ali perto, havia nascido Machado de Assis que em uma crônica para A Semana comemorava a demolição do cortiço: “Gosto desse homem pequeno e magro chamado Barata Ribeiro, prefeito municipal, todo vontade, todo ação, que não perde o tempo a ver correr as águas do Eufrates. Como Josué, acaba de pôr abaixo as muralhas de Jericó, vulgo Cabeça de Porco”.  Eu passava quase diariamente por ali e não sabia. 

 

Papéis de família – É uma caderneta de capa preta, bordas vermelhas, com o ano de 1928 centralizado, abaixo da metade inferior, e, mais abaixo, os meses de maio, junho que, por sua vez, ficam acima e desalinhados dos meses de julho, agosto. Na ponta inferior direita, parte da capa preta deu lugar ao marrom desbotado do papel. A primeira página começa no dia 4 de junho e além da data e do dia da semana traz um medicamento: nuclearsitol Robin. E a explicação: Medicação Núcleo-Arsenico-Phosphatada, Granulada, 1 colher medida contém 0 gr 01 de méthylarsinato disodico; Pre-tuberculose Doenças degenerativas. Uma caderneta de José, regalito dos laboratórios Robin, de Paris? Dentro, tem uma foto pequena de Haydée de vestido, sapato e meia, fazendo uma posição de ballet. 

 

Papéis de família – É um recorte de jornal e alguém escreveu na margem, a caneta, publicado no Jornal Pequeno, de Recife, em 26 de janeiro de 1942. O título: Bailarina aos 6 anos; logo abaixo, Haidée (sic) Gonçalves, no Rio, onde reside, é disputada para as festas de caridade / Atuou em “Joujoux e Balangandans / Uma vocação para o bailado. Ao lado, uma foto mostra H dançando com um vestido longo e uma flor nos cabelos. Na página da Biblioteca Nacional, posso ver toda a primeira página, onde a matéria sobre H ocupa um pequeno espaço em duas colunas, à direita e abaixo da matéria principal, da manchete do jornal: A Alemanha, o Japão e a Itália ameaçam o Brasil em cartas dirigidas ao Itamarati. Duas fotos mostram, segundo a legenda, um depósito de obuses na costa da Grã-Bretanha e canhões. O texto sobre a jovem bailarina está cercado de notícias da guerra, mas o que surpreende é o tom das respostas dessa menina de 13 anos, que desde os seis fazia sua formação com Maria Olenewa no Teatro Municipal do Rio. 

 

A entrevista – O repórter pergunta se H tem intenção de ficar no Recife: “Sim, tencionava. Era meu maior desejo estar junto da família (seu pai, o capitão José Gonçalves, era então chefe do serviço médico da Base Aérea do Recife). Mas se isso o fizer, interromperei o curso que desde a idade de seis anos estou realizando no Rio. Será uma pena interromper um trabalho de sete anos e a que me dediquei com todo o entusiasmo. E volto para o Rio lamentando não ter uma oportunidade de colaborar para qualquer obra de fundo social no Recife. Essa toda a minha mágoa, porque para mim, tudo quanto aprendi de bailado foi para minorar a dor dos que sofrem. Sempre trabalhei para festas de caridade. Tenho pelo ballet mais do que admiração – verdadeira fascinação. (...) Para mim, o bailado é um dos mais belos esportes para a mulher. Vejo ainda no bailado um dos mais importantes, talvez mesmo básico, porque alia a arte à cultura física. Todo esse movimento que se faz outro não é senão ginástica. Ginástica e arte.” Pergunto a ela sobre essas declarações e ela ri. Diz que não disse nada disso: “Você sabe como são os jornalistas, né?” Com a morte de José, em 1945, H teve de abandonar o corpo de baile do Teatro Municipal e a formação com Maria Olenewa para trabalhar como secretária da Divisão de Saúde do Ministério da Aeronáutica. 

 

Drummond – Em 1928, o poeta mineiro publica No meio do caminho. José estava em Alegrete e não viu. Em 42, naqueles anos de crise para Jorge de Lima e para José, sai em Poesias, o poema José: “E agora, José? (...) / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mofou,/ e agora, José?” Talvez, José tenha visto, talvez não. José, assim parece, não era leitor de poesia. Era um homem de ciência, da ciência dos olhos. Provavelmente, não viu. 

 

Restos de família – A história é uma constante construção de ruínas.

 

Conversa com H – Mas como é que você sabia que ele estava ficando viciado em morfina? “Ah, eu sabia... sabia.” Mas sabia como? “A maneira dele de lidar comigo. Era diferente.” Como assim? “Ele sempre foi muito chegado a mim, ele sempre me fez muito carinho, mas ele tava demais. Assim, onde é que você vai? fica comigo. Eu comecei a achar: o que será que houve? Em todo caso, eu fiquei quieta. Aí, foi indo, fui vendo como ele mudava às vezes de comportamento. Foi (antes de 1943). E aí eu comecei a desconfiar de alguma coisa.” E quando você viu a primeira vez? “Você sabe, eu fiquei...Eu fui atrás dele. Eu seguia ele, não via nada, voltava pra casa. Mas um dia eu vi ele entrando em um lugar, não me lembro mais qual foi, eu entrei, esse negócio de criança, e eu tinha medo também de ver. Eu entrei e ele tava mexendo em alguma coisa. O que que você quer? Eu disse, não, eu tava vendo onde você estava. Ah, tô aqui vendo uma coisa pra mim. Então, tá bom. Lá ia dizer a ele o que era? Eu gostava muito do meu pai. Eu comecei a desconfiar no dia em que eu entrei de repente no quarto dele e ele escondeu algo. O que que você quer? Não, não, eu tava te procurando e não te achei. Eu tô aqui depois a gente fala. Aí eu digo: Ah! Tem coisa!” Mas a relação dele com Odette? “Nunca foi muito boa. Desde que me lembro de criança. Eles não se davam bem.” E você lembra qual era a posição dele em relação à guerra? “Ele não gostava de guerra.” Mas como não gostava de guerra, ele era militar. “Não gostava. Ele sempre dizia: isso não traz nada de bom.” Mas de que lado ele estava? Da Alemanha? Dos EUA? “Da Alemanha. Ele era muito pela Alemanha, isso eu me lembro bem. A Alemanha é que era um país bom, dizia.” Mas e Hitler? “Ele não falava em Hitler.” Mas como? Naquela época, Hitler era a Alemanha. “Sei lá. Isso era coisa dele. Eu era muito menina, nunca cheguei a uma conclusão. Só sei que ele gostava da Alemanha. Eu nunca gostei muito de comentar essa parte de minha vida. Eu gostava muito dele. Aquilo me doía muito. Não só pelo que ele estava fazendo, botando fora toda uma vida. O que eu via, ouvia, o que eu percebia, eu não chegava a... Odette não dizia nada. Era muda. Isso é que era o pior. Às vezes eu perguntava: o que você tem, mamãe? Nada, nada. Em vez de se abrir. Mas ela sempre dizia que eu gostava mais do meu pai do que dela. E era verdade (ri). Ela era difícil. Minha infância não foi muito boa não. Eu me lembro muito dele, eu sei que ele sofria. Às vezes eu chegava: Pai o que que você tem? Ele: Nada, filha. Você precisa de alguma coisa? Não, filha. Se precisar me diz. Tá bem, eu digo.”

 

No Rio – Visita à cidade pra rever amigos e encontrar Ana e Carlos, hospedados em Laranjeiras. Com Carlos e Ary, vou ao complexo da Maré: descemos do táxi na Avenida Brasil e entramos na Nova Holanda, uma das 16 favelas do complexo que abriga 150 mil moradores. Carlos havia sido convidado a dar uma oficina de livros artesanais no Observatório da Favela, logo no primeiro quarteirão. Na hora do almoço, passamos por dois galpões comprados pela ONG Redes: um abriga projetos de dança, o outro de artes. Terminada a oficina, entramos mais na favela, com a instrução de Ary para não encararmos o pessoal do tráfico que controla as ruas (fechadas com barras de ferro e pneus) e expõe as drogas para venda. Chama nossa atenção o comércio e a vida intensa. A caminhada nos leva à escola da Redes: impressionante! Três salas de aula com 50 lugares, ar condicionado, chão de tábua corrida, jovens sorrindo, sala de música com violões, cavaquinhos. Um dia antes, o ministro da Justiça Flávio Dino havia estado na favela. Saravá!

 

País da violência – Um homem branco mata a machadadas quatro crianças em uma creche em Blumenau, Santa Catarina, reduto do Inominável ladrão de jóias. A imagem do país da alegria e do samba vai dando lugar ao horror que emerge da violência que nos funda: o assassinato dos povos originários e a escravização dos africanos. O país se funda com um crime. A camada que o escondia, a cordialidade, não resiste à pressão da barbárie fundante. Nem o samba, nem o futebol (este, aliás, cada vez mais um fracasso).

 

Defeito de cor – No Rio, vou duas vezes à exposição no Museu do Mar e pela primeira vez vejo uma mostra dedicada aos afrodescendentes vista por (eram mais de 80%) afrodescendentes. Passeio também com Ana, Carlos e Ary pelo Cais do Valongo, onde chegavam os navios tumbeiros e onde a última reforma da cidade encontrou o cemitério dos pretos escravizados. 

 

Dementia – Procuro em livros de Gerontologia informação sobre demência. Há dias, H caiu e machucou a cabeça. Volto do Rio e a encontro meio perdida, perguntando pela mãe (que morreu em 1986). 

 

                                                                                                                                                                     Dibujo: Marcelo Praça

 

 

 

(Actualización  mayo - julio 2023/ BazarAmericano)


 




9 de julio 5769 - Mar del Plata - Buenos Aires
ISSN 2314-1646