julio-agosto 2017, AÑO XI, Nº 62

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Jornal do Brasil
Extra! Extra! Jornal do Brasil vira finalmente Dobrabil


ERRATA

onde se lê

leia-se

leia-se

onde se lê


Mais de um poeta marginal já terá escrito o poema acima. Contudo, em se tratando deste mesmo poema nas páginas do Jornal Dobrabil, o modo de valorá-lo necessariamente se modifica. No caso em questão, há uma demolidora firma em jogo, que vem a ser a do poeta Glauco Mattoso, autor de, entre vários outros clássicos instantâneos, a autobiografia Manual do podólatra amador: aventuras e leituras de um tarado por pés (1986), os sonetos de Centopéia: Nojentos e quejandos (1999) e o ensaio O que é poesia marginal (1981) para uma coleção de grande tiragem.

Como se não bastasse, glaucomatoso (vítima da doença), o poeta (nascido em São Paulo, 1951, cego desde os 40 anos de idade) é o atual recordista mundial de composição de sonetos. Autor de nada menos do que 2.400 deles, invariavelmente sórdidos e chulos, Mattoso superou recentemente a marca do italiano Giuseppe Belli (1791-1863), autor – conta-se – de 2.279 sonetos, invariavelmente castos e puros, sobretudo ao lado daqueles de Pedro o Podre, a outra alcunha de Glauco.

Por isso, aqui, nesta notícia proveniente das terras do Pau Brasil, onde se lê “Jornal do Brasil”, leia-se Jornal Dobrabil, título que remete tanto ao tradicional diário carioca chamado Jornal do Brasil, fundado em 1891 e recentemente fechado, quanto à estratégia e ao formato das entregas do então desconhecido Glauco Mattoso, entre os anos da glória de 1977 e 1981: jornaizinhos, fanzines dobrados ao meio e enviados, via correios e telégrafos, a uma série de personalidades do país, desde o escritor e humorista Millôr Fernandes, fundador do Pasquim, até os poetas Caetano Veloso e Augusto de Campos – este último o autor do prefácio da primeira edição integral do Jornal Dobrabil, já de 1981, onde se leria:


q o JD

me diverte

delicia

choca

e às vezes aterroriza

será dizer pouco?

Mas, dizer pouco é o que eu disse até aqui, porque a principal característica Dobrabil é a maledicência surfando em páginas “marretadas”, segundo expressão do autor, numa máquina Olivetti. As mágicas verbivocovisuais feitas com uma máquina de escrever em alvos papéis cheios de mentira e excesso inventam uma lógica singular de circulação e leitura, ao mesmo tempo que provocam a dissolução de qualquer laivo de originalidade e autoria no discurso desse “orgam da arcademia brasileña de lettras germinadas & do dce livre na faculdade de orthographia phonetica da universidade gamma phi, um trabalho dobrado de glauco mattoso e pedro o podre”. Tudo e todos são citados e achincalhados, do editorial à seção de cartas e às palavras cruzadas.
No prefácio à reedição de 2001 (ed. Iluminuras), Glauco Mattoso – nascido Pedro José Ferreira da Silva – descreve o seu modus operandi na exploração dos mecanismos de sua Olivetti, em nome de possibilidades gráficas insuspeitadas, bem como explica no detalhe as razões técnicas do descarte da similar e concorrente Remington:

“O Ovo de Colombo foi a descoberta do meio espaço, isto é, a possibilidade de teclar uma letra na posição intermediária entre dois caracteres normalmente digitados, o que era obtido pressionando-se o espaçador simultaneamente à tecla desejada. Aqui surgiu fundamental diferença entre uma Remington e uma Olivetti. A primeira não posicionava a letra exatamente na metade da distância entre os dois dígitos, enquanto a segunda tinha total precisão. Feita a escolha, pude compor linhas “pontilhadas” onde cada ponto era apresentado pela letra “o” minúscula, que por seu formato circular permitia direcionar a linha tanto na horizontal quanto na vertical ou diagonal. Na horizontal, o distanciamento entre os pontos era o da digitação normal; na vertical, a mesma distância era obtida movendo-se apenas um dente da engrenagem do cilindro onde o papel se bobinava, isto é, entrelinha mínima; na diagonal entrava minha descoberta, a entrelinha mínima combinada com o meio espaço, colocando a letra “o” numa posição que, alternada com o lugar normal do dígito, dava forma a grandes maiúsculas como o A, o N e o Z. A partir daí, a criatividade e o mimetismo não teriam limites na pesquisa de famílias tipográficas assemelhadas às mais diversas fontes empregadas pela grande imprensa nos cabeçalhos e manchetes, bem como pelos artistas gráficos em seus projetos semióticos.”

Se reconhecemos a “poesia marginal” do Brasil dos anos 70 como aquela do orçamento zero e da produção independente, podemos encontrar a figura de Glauco Mattoso nela. Mas, a figura do bancário e do bibliotecário que ele também foi, não a poderemos encontrar aí. No dobrável Brasil, a expressão “marginal” ficou marcada pela geração da contracultura, atravessada por um anti-intelectualismo que reagia ao cerebralismo da poesia concreta e optava pelo “desbunde” – a denominação tupiniquim para a liberação dos costumes, o sexo, drogas e rock’n’roll. Glauco Mattoso, maldito erudito, não: ele misturou as vertentes dominantes na poesia daquele momento sem nenhum pudor, numa forma peculiar de reivindicação e reinserção do velho conceito de antropofagia devido a Oswald de Andrade:
"Já que a nossa cultura (individual & coletiva) seria uma devoração da cultura alheia, bem que podia haver uma nova devoração dos detritos ou dejetos dessa digestão. Uma reciclagem ou recuperação daquilo que já foi consumido e assimilado, ou seja, uma sátira, uma paródia, um plágio descarado ou uma citação apócrifa."

Citar a citação, canibalizá-la, comer os restos do que já havia sido devorado, voltar a ruminar a merda toda para se reapropriar do que já havia sido apropriado antes, comer o canibal. Essa mescla explosiva do poeta sujo e malvado Glauco Mattoso com o são e salvo bibliotecário do Banco do Brasil resultou na dobrabilidade neobarroca de sua lira maldizente, a partir do gesto primeiro de compor um jornaleco inteiro numa Olivetti, mantendo-se sempre fiel a seus dez desmandamentos: “Amassabil Rasgabil Inflammabil Permeabil Cortabil Cartabil Descartabil Sujabil Limpabil & Até Mesmo Legibil”.

Com esta redevoração, duplamente crítica e abjeta, dos detritos do Brasil, ainda durante a última ditadura militar, o JD já curtia e repercutia a sua peculiar teoria da catástrofe e do caos, mediante um modo de intervenção tão agressivo quanto calculado, em meio à intensa produção de fanzines do tempo do descompromisso da chamada “geração mimeógrafo”. Aliás, desde esse momento, Glauco Mattoso faz-se colaborador-letrista de várias bandas paulistas de punk rock, tendo criado em 1994 seu próprio selo, o Rotten Records, que em 2001 lançou um disco com uma antologia de seus sonetos, gravados por grupos brasileiros de várias tendências.

Assim, no momento em que acaba de morrer o secular diário carioca – a última edição impressa do Jornal do Brasil saiu no dia 30 de agosto de 2010 –, um brinde a ele e a seu mais digno, atual e bem acabado pastiche, o Jornal Dobrabil, a cujo signo se dobra esta coluna no Bazaramericano.

 

(Actualización octubre-noviembre 2010/ BazarAmericano)




9 de julio 5769 - Mar del Plata - Buenos Aires
ISSN 2314-1646