noviembre-diciembre 2017, AÑO XI, Nº 64

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Antonio Carlos Santos

Diário de Viagem
Um tradutor no Baixio dos Francos, setembro/outubro de 2017

für Karl,

el que fluye, Flüβe

(concerto para oboé

anônimo, séc XVIII)

 

Primavera na Ilha de Santa Catarina, antes da partida

O músico clássico, o intérprete, digamos um pianista, é o sujeito por excelência da sociedade disciplinar. Quinze ou 20 anos de Conservatório fazem com que ele tenha uma postura domesticada nas salas de concerto: os homens quase sempre com uma casaca e as mulheres com vestidos horríveis. Outro dia caminhando me veio à cabeça uma analogia entre a postura, a maneira de tocar de Glenn Gould e a cena de Nosferatu em que o vampiro ajoelhado sobre o corpo de Lucy chupa seu sangue até ser surpreendido pelo nascer do sol e morrer. Gould não se sentava no piano como os outros, sua cadeira não era aquela tradicional que encontramos em qualquer sala de concerto que faz com que o pianista ajuste a altura para ficar com os braços perpendiculares ao teclado, não sem antes jogar para trás, num gesto blasé, as “asas de barata” de seu traje endomingado. Não, Gould, que era um homem muito alto, tinha sua própria cadeira, feita por seu pai, com os pés da frente mais curtos. Dessa forma, sentava-se mais baixo do que o “normal” e meio inclinado. As mãos no teclado é que me lembravam as mãos de Nosferatu sobre o corpo da heroína do filme de Murnau e de Herzog. Sua cabeça também ficava muito perto do teclado e o “pior”, em vez da discrição e da postura domesticada e séria de quem interpreta algo sagrado, Gould gemia, fazia caretas e solfejava enquanto tocava. Talvez até por isso tenha abandonado as salas de concerto muito cedo para se dedicar às gravações. Gould tinha algo a ver com Nosferatu e com Klaus Kinski.

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         Antonio e José – Chego em cima da hora no Aeroporto Santos Dumont e escuto, já na sala de embarque, meu nome sendo chamado: “Passageiro Antonio Santos, última chamada para o voo 4359. Embarque imediato”. Me assusto com meu nome dito assim, o primeiro e o último, o nome de meu avô paterno e não do materno, José Gonçalves, de quem, supostamente, segundo a mitologia familiar, eu seria uma espécie de reencarnação. Moro há 28 anos na Ilha de Santa Catarina, mas toda vez que volto ao Rio me reencontro com os cheiros – de mijo nas calçadas, da maresia, das águas podres da Baía de Guanabara – com a paisagem, mais tropical que a do Sul, com a agitação da cidade, o barulho, a pressa dos cariocas e os mendigos, os moradores de rua. Me sinto em casa; reconheço as ruas, os ônibus, o delicioso e familiar chiado da fala carioca, o povo mais misturado, mais preto que o do Sul, a cordialidade e a tensão convivendo no mesmo espaço. E me lembro do que disse Tom Jobim quando lhe perguntaram se era bom morar em Nova York: “Nova York é bom, mas é uma merda. E o Rio é uma merda, mas é bom”.

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         O leitor – A primeira vez que ouvi as Variações Goldberg, de João Sebastião Bach, aconteceu isso que, mais tarde, nomeei como uma experiência. Morava ainda no Leblon, devia ter cerca de 16 anos. A família havia saído, estavam todos fora, nem me recordo por que ou onde, não importa. Importa que havia esse disco duplo das Variações tocadas por Karl Richter, a quem eu chegaria a ver e ouvir dirigindo a Orquestra Bach de Munique na Sala Cecília Meireles, na Lapa, não muito longe do conservatório onde eu estudava violão clássico. Fechei as cortinas da sala para evitar a entrada de luz, deitei-me no sofá e fechei os olhos. Da exposição do tema à primeira variação fui tomado por uma espécie de revelação, ou epifania. As notas pareciam se materializar na sala do pequeno apartamento de classe média da Afrânio de Melo Franco. Nunca mais esqueci. As variações passaram a me acompanhar desde então. Ouvi outras versões, no cravo e no piano, até que um dia a experiência galgou mais um grau na escala da magia e do encanto: Glenn Gould. Reconheci aí algo muito poderoso que, mais tarde, chamei de leitor. Glenn Gould era um excelente leitor. Pouco depois, me chegou às mãos o livro de Thomas Bernhardt, O náufrago.

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         Fragmento de um romance – Na verdade, nasci na Alemanha, de mãe brasileira e pai alemão, de Frankfurt. Me lembro pouco desse tempo, pois aos cinco anos a família se mudou para o Rio e eu fui criado como carioca, no clima quente, no ritmo do surdo e do pandeiro, embora a língua alemã tenha resistido, mesmo depois da morte de meu pai, quando eu tinha 8 anos. Passei a vida nesta cidade do Rio espremida entre a montanha e o mar e mesmo nos momentos mais difíceis da ditadura continuei andando pelas ruas do Leblon, bem antes de ele virar um bairro chique, sem pensar na possibilidade de morar na Europa. A língua alemã me servia para ler filosofia, literatura, para seguir as Cantatas de Bach, era muito mais uma língua de estudo do que uma língua do cotidiano. Agora, já aos 60 anos, resolvi voltar. Talvez voltar não seja bem a palavra. Um desgosto pelo que está acontecendo no Brasil me fez pensar em, por que não?, viver nesse país onde nasci, cerca de 10 anos depois daquela guerra insana. Minha primeira tarefa é transformar a língua de estudos em uma língua do dia-a-dia. A cidade ainda com muitas ruínas em que meus pais viveram aparece apenas nas fotografias. Frankfurt é hoje uma cidade rica, burguesa, cujo centro financeiro ganhou o apelido de Mainhattan em função dos arranha-céus que contrastam com os prédios e casas quase discretos.

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Música por vir – Para mim a Philosophie des Geldes de Georg Simmel parece uma sinfonia de Mahler em sua grandiosidade, na divisão entre os blocos de movimentos separados em duas partes, analítica e sintética, cada uma composta por três capítulos que, por sua vez, estão divididos em três partes, e também no esgarçamento da linguagem, ou seja, no esgotamento do sistema tonal. Algo muito próximo a uma certa noção de décadence com que Nietzsche vinha trabalhando no final do século XIX, e cujo alvo era, entre outros, seu ex-amigo Richard Wagner. Mas a décadence é também o momento da virada, e o ataque a Wagner e a sua vaidade histriônica era também um resto de amor que ligou o jovem professor da Basiléia não apenas a Richard, mas a Cosima, quando visitava a casa na beira do Vierwaldstättersee, em Tribschen, ao lado de Luzern, na Suíça, a partir de 1869. A música decadente de Wagner e dos wagnerianos anunciava de alguma maneira não apenas o atonalismo e o dodecafonismo, mas a chegada de um outro tempo da música, o tempo do jazz e do samba, da música popular.

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Lezama Lima: “Lo único que crea cultura es el paisaje y eso lo tenemos de maestra monstruosidad, sin que nos recorra el cansancio de los crepúsculos críticos. Paisaje de espacios abiertos, donde no se alzará, como en los bosques de Auvernia, la casa del ahorcado”.

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Begehren – A cena em que Nosferatu (Klaus Kinski) ataca Lucy (Isabelle Adjani) na versão de Werner Herzog é toda ponteada por gemidos e ruídos dessa boca que agarrada ao pescoço da mocinha chupa seu sangue, não sem antes, maravilhado, olhar seu corpo de cima a baixo e até levantar seu vestido. O vampiro está ajoelhado diante do corpo de Lucy, suas mãos pousadas nos seios da jovem. O que ouvimos é apenas o som da chupada e os gemidos daquele ser cansado que se alimenta da juventude da vítima. Gould ataca o piano como Nosferatu, com desejo. Chupa o sangue do teclado.

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Acaso – Leo en un artículo / que el objeto del siglo / es la ruina / En la ruina / se busca, leo, / lo irreproducible (Carlos Ríos) “Su ausencia se distingue de la ruina; el acontecimiento no regresa, no simplemente porque haya pasado el tiempo, sino porque no estaba hecho para perdurar” (Irina Garbatzky) “Esse equilíbrio peculiar entre a matéria mecânica, pesada, que se opõe passivamente à pressão, e a espiritualidade formadora que impele para frente se rompe, no entanto, no momento em que a construção decai. Pois isto significa que as simples forças naturais começam a ter domínio sobre as obras humanas: o equilíbrio entre natureza e espírito que a construção apresentava se desloca em favor da natureza. Esse deslocamento se resolve em uma tragicidade cósmica que lança toda ruína, a nossos olhos, para a sombra da melancolia; pois agora a decadência parece a vingança da natureza à violação que o espírito produziu nela ao conformá-la a sua própria imagem” (Georg Simmel)

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O que há de bom na rotina é retomá-la.

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O dom e a amizade – A meu amigo R vejo pouco, primeiro porque nem sempre estou na Alemanha, segundo porque é um homem muito ocupado; ocupado com sua família, tem quatro filhos, e com uma carreira que lhe exige muito. Mas quando nos vemos, é uma alegria só. Conversamos, cantamos, o violão passando de mão em mão, as vozes às vezes se misturando em alguma canção. Aos amigos, não se pede nada. Aqui na ilha, outro amigo, um alemão-gaúcho, um lobo de quase dois metros, me convida com frequência para um churrasco com cerveja. Nunca vou. Quase não bebo e não como carne vermelha. Um dia vem me visitar, uma dessas tardes boas de sofá pra botar a conversa em dia. Na saída, meio culpado, ensaio uma desculpa, ao que ele imediatamente me responde: não importa, você não vai, eu venho.

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Alfabetização – Minha filha aprendeu a ler e a escrever na escolinha do bairro. Sim, uma pequena escola com apenas três salas de aula, em pleno território manezinho no Sul da ilha. Aí, depois de uma malograda experiência em uma escola burguesa privada, ela aprendeu numa cartilha não muito diferente da minha de há tantos anos a entrar no mundo do texto. A “tia” era um pouco gorda, forte, decidida, com a autoridade no ponto certo pra comandar as crianças. Anos depois, passando pela curva da Pedrita vejo na esquina a professora da minha filha. Era início da noite, e ela vendia sanduíches ou pipoca pra fechar a conta no fim do mês. Que diabos de país pode ser este que condena seus professores a uma tal vida?

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Afinal, onde dormem os papagaios?

 

(Actualización noviembre 2017 - febrero 2018/ BazarAmericano)

 

 




9 de julio 5769 - Mar del Plata - Buenos Aires
ISSN 2314-1646